(esse texto pode, caso queira, ter esse título: "Oito anos publicando o mesmo texto: Quem diria...")
fonte: http://ccc527.blogspot.com/
Olá;
O mês de maio é o mês de Maria, das mães, das noivas... Maio foi o mês em que a última nação orgulhosamente escravocrata da face da terra libertou (sic) os seus escravos. Em maio eu comemoro (ou melhor, faço uma reflexão sobre a minha finitude) meu aniversário. Foi em maio que eu comecei minha caminhada na Arte Real. Maio é o mês que eu entrei para a Ordem DeMolay em um dia 28 no distante ano de 1983. Quem me convidou e também deu as primeiras explicações foi o padrasto do Mano que foi o meu padrinho na Ordem, Ronnie Drummond, Ethienne; e depois o seu avô o Tio Jurandir, maçom da tradicional e poderosa Loja Vigilantes da Lei. O Ronnie eu conhecia há muito tempo, mas nunca fomos íntimos até antes de entrar na Ordem, ao contrário de seu Ethienne e do seu Jurandir que eram amigos da minha família. Meu pai, mais preocupado na época com a reabertura política e a busca de sua anistia política do que com associações paramaçônicas juvenis, quando ouviu falar sobre o convite comparou gaiatamente a Ordem com a seita do Reverendo Sun Myung Moon que na época era o grande assunto na mídia por causa de “acusações de lavagem cerebral” em jovens. Tanto que durante todo o meu primeiro ano de Ordem ele sempre falava: “Vai lá pro Moon hoje?” Agora eu entendo até melhor a piada (demorou muito, não é mesmo?) quando conversando com a minha mamãe Yolanda (que alias é nome também de uma bela música do cubano Pablo Milanés), ela me diz que só me deixou entrar na Ordem por causa do Tio Jurandir, isso porque ele disse a ela “que era bom para mim”. Pois é, naqueles tempos entrar para Ordem era mais secreto do que entrar para a própria maçonaria hoje em dia. Ninguém me levou lá no Capítulo para conhecer e ser apresentado aos demais, como se faz atualmente. Talvez seja que eles quisessem testar o meu real interesse em entrar, pensei. O Ronnie me deu o endereço escrito num cartão, onde também estava escrito: falar com Ronnie DeMolay e Levy DeMolay. Quando descobri que o nome era Ordem DeMolay, raciocinei que todos ali usavam esse sobrenome para se identificarem, que nem na banda The Ramones, onde todo componente que entrava ganhava o sobrenome Ramone. O tal “Levy DeMolay” que eu escrevi anteriormente era o Levy Antônio, 6º Mestre Conselheiro do Capítulo Rio de Janeiro, que me falou um monte de coisas. Só que eu não prestei muita atenção porque aquele pessoal que chegou de bermuda, chinelos e mochilas; de repente já estavam todos de calças pretas, camisas brancas e gravatas pretas. Daqui a pouco eles passavam para lá e para cá carregando candelabros, quadros, livros, e o que mais me chamou a atenção: o estandarte grande bonito todo vermelho. O impacto de ver o estandarte pela primeira vez não me fez perceber que o rapaz usava uma capa negra bonita. Depois passou outro também de capa negra com um bastão na mão e uma postura de autoridade que em poucas palavras botou todo mundo para dentro. “Depois a gente fala contigo. Aparece semana que vem”. Apareci. Dessa vez quem ficou me aturando num canto enquanto o vai e vem que aconteceu da outra vez novamente se repetia foi o Jorginho, um Irmão maravilhoso e que muito me marcou como o primeiro que vi chutando o “pau da barraca” sobre as bobagens que fazíamos fora e, principalmente, dentro da sala capitular. “Tu é um cara bacana, e como seu padrinho é o Ronnie que é meu chapa, tu tá aprovado”, sentenciou o Levy Antônio, seguido dos cumprimentos da figura mais esquisita, caricata e folclórica que conheci na Ordem em toda a minha existência: Fábio França, cujo seu nome só descobri muito tempo depois, porque todos o chamavam pelo seu “nickname” conhecido universalmente como “Phodão”.
Finalmente o dia 28 de maio chegou. Aquela semana foi muito boa, pois na segunda-feira tinha sido o meu aniversário, 15 anos, e eu recebi um presente inesquecível: pela primeira vez a minha mãe teve condições de me dar uma pequena torta daquelas de supermercado que leva banha no lugar do glacê. Chorei tanto... Para quem teve uma infância financeiramente difícil, porém decente, comendo o pão que o general amassou, é uma coisa inesquecível, tendo um significado simbólico muito forte, como, por exemplo, um simples reloginho de pulso que foi o primeiro que minha mãe, que passou anos na frente de uma máquina de costura sustentando a casa, comprou para mim com muito sacrifício, e que guardo até hoje como o meu maior tesouro. No sábado cheguei cedo na Praça Seca, de mochilinha com a roupa dentro, que nem os outros. O resto é aquilo que eu suponho acontece com todo mundo até hoje, só que com a porcaria do trote no meio. Pelo menos naquele dia eles pegaram leve comigo e com os mais quatro que ali estavam, em comparação do que vi depois em outras iniciações. Apenas ficaram alisando a espada no pescoço e gritando bobagens. Terminado a cerimônia, que de tão “secreta” nem teve a parte aberta ao público, me lembrei de pagar a taxa de iniciação que ninguém tinha me cobrado até àquela hora, e que foi de exatos Cr$4.000,00 (quatro mil cruzeiros) entregue ao tesoureiro Paulo César Torres. Senti depois que o pessoal gostou do meu gesto. Ponto para mim.
Assim começou a minha caminhada dentro do DeMolay. Muita coisa boa aconteceu, assim como muitas & muitas decepções, mas que no fundo serviram para alguma coisa. Às vezes os meus pais alertavam-me que eu estava me dedicando demais à Ordem e que a vida não era só aquilo, e às vezes por uns curtos tempos eu realmente “dava um tempo” mesmo para dar atenção ao futebol aos colegas de escola e a procura das primeiras relações com as meninas, pois o DeMolay é um microcosmo fantástico que se não tiver alguém perto para te chamar de volta, você cai de cabeça sem pensar nas consequências, pois você só pensa “naquilo”. Uma gestão de seis meses, quando os Irmãos se dedicam ao trabalho, era uma eternidade a meu ver. Desde cedo passei a viajar sem a companhia dos meus pais (a primeira sensação de liberdade irresponsável é fantástica), aprendi a datilografar (tá bom, menos...) e a escrever cartas formais, convites, memorandos e etc, a ter postura de oratória em público (apesar de eu ser até hoje um péssimo orador de improviso) a ter paciência (não quer teste de paciência maior do que era ouvir os longuíssimos discursos do Tio Venâncio Igrejas?), e mais um monte de coisas que eu devo à Ordem por ter mostrado o caminho, pois grande parte de tudo isso depende fundamentalmente da gente estar a fim, ou como diz aquela velha e sábia frase: “Mais importante do que você entrar para a Ordem é deixar que a Ordem entre dentro de você”, certo?

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