Mexendo aqui no meu baú de textos que publiquei no lendário Blog "Escritos Esparsos sobre DM", percebo friamente que a grande maioria delas é datada e um tanto quanto anacrônica para jogar novamente ao ar anos depois... Uma das poucas exceções é o texto abaixo escrito e publicado em dezembro de 2005, e que espero que gostem de ler e reler.
Boas festas a todos e DM na cabeça e no coração!!
Um pequeno e despretensioso conto de Natal (pode ser também de ano novo, páscoa, finados, independência, carnaval, proclamação da república...)
Era uma vez um jovem demolay ativo, que em busca de suas virtudes perdidas em meio a tantas dúvidas, começou a escalar sozinho uma enorme montanha que parecia atingir o céu.
Lá chegando em seu cume, muito cansado, avistou uma pequena caverna, e ao entrar em busca de abrigo, observou que havia uma pessoa com uma longa barba, mas que não aparentava ser tão velha. Possuía um olhar penetrante, tipo daqueles que tinham visto de tudo na vida e as haviam compreendido.
O homem em um gesto simples lhe mostrou duas pequenas jarras, uma com água e a outra com vinho e mais uma cesta de pães. O jovem depois de ter saciado a sua fome e sede, pediu que lá ficasse para descansar e foi prontamente atendido, caindo logo depois em um longo e profundo sono.
Ao despertar meio desorientado por não saber quanto tempo havia dormido, percebeu que o homem ainda estava próximo bebendo e comendo seu pão lenta e tranqüilamente, fazendo um gesto para que se servisse novamente. O garoto estava com a sua camiseta esfarrapada e suja conseqüente da longa escalada, ainda mostrando o brasão colorido da Ordem e o nome do seu Capítulo, quando o homem finalmente o dirigiu a palavra:
- Sois um demolay?
- Sim sou, você nos conhece? – respondeu com a boca cheia.
Em tom lacônico, mais uma vez perguntou:
- Eu não perguntei se pertences ao DeMolay... Eu perguntei se sois um demolay.
- ...
E lhe interrompeu de forma firme, porém docemente.
- Também não lhe pedi palavras impressas em papéis que se deterioram com o tempo e que são decoradas sem sentimento. Você é um demolay? Eu quero a resposta do seu coração... – enfatizou o sábio homem do topo da montanha.
- Tudo que eu posso dizer nesse momento é apenas que sim, respondeu o jovem.
- Você é muito jovem e puro para estar com tamanha aflição. A mente aflita pela dúvida não consegue se concentrar no caminho da virtude.
- Pois eu vim em busca de respostas para as minhas dúvidas. Procurei em todos os lugares e nas pessoas que mais respeito e amo... Quando mais buscava esclarecimentos, mais as trevas da dúvida me invadiam a alma.
- Procurou pelos seus Irmãos de Ordem?
- Sim, mas eu não compreendia como eles cumpriam os rituais como se fossem uma obrigação enfadonha e quando saiam dali faziam coisas que contradiziam os ensinamentos... Outros que levavam mais a sério os ensinamentos e se destacavam na ritualística passaram a ganhar de presente colares, comendas e condecorações que não sei porque os faziam tornarem-se arrogantes, pedantes e completamente surdos para com seus antigos amigos e intolerantes para aqueles que tinham apenas uma opinião contrária. E passaram a acumular desafetos em vez de amigos...
- Procurou em seus mais velhos Irmãos seniores de Ordem?
- Sim, mas eu não compreendia porque as palavras deles eram também tão opostas aos seus gestos... Discursos bonitos, elaborados, tocantes que demonstravam gratidão... E quando eu os seguia notava que não tinham mais paciência em continuar a caminhada conosco e que se distanciavam das nossas virtudes cardeais apesar de serem pessoas de bem... Eles botam a culpa sempre na vida adulta que levam...
- E procurou pelos seus Tios livres e de bons costumes?
- Sim, mas as respostas que eles tinham fugiam da minha capacidade de entendimento... muitas arengas, parábolas, simbologias e filosofias... Eu sinto que levaria muito tempo para conseguir alguma resposta e gastaria todas as minhas forças... Além do mais, a instituição secular dos meus Tios que deveria ser a nossa estrela guia, também perdeu-se em brigas e rupturas por causas de coisas fúteis vitimados pela vaidade.
- E por fim procurou os seus líderes?
- Achava que seria a minha última chance, mas lá apenas me reforçaram sobre os meus votos de fidelidade em relação ao meu Supremo Conselho.
- Fidelidade a quem? Quis saber o homem, dando mais um pedaço de pão ao jovem que estava no pequeno cesto.
- Eu não sei direito. Fidelidade a uma Instituição é uma coisa tão abstrata... mas deve ser muito importante, pois eu sou muito cobrado e patrulhado em relação a minha fidelidade. Não posso trair os meus Irmãos...
- Mas você mesmo disse que a fidelidade é apenas para com uma instituição. Nem sempre a fidelidade que te cobram pode ser considerada justa. Como você pode ser fiel a algo ou alguém que te traz dúvidas em vez de certezas para a razão e conforto para o espírito?
A fidelidade deve ser em princípio com você mesmo. Sem ser fiel a suas próprias convicções você será uma pessoa sem estrutura moral e sem condições de ser fiel a seus Irmãos, aos seus pais e a sua futura companheira que estará junto de ti até os seus últimos dias...
Quando você ajoelhou-se naquele altar, consagrado ao Pai Celestial os seus votos foram escritos em vosso coração. No dia em que você sentir a dúvida e o desânimo dificultarem a sua caminhada com as jóias da juventude e da maioridade, não precisa escalar essa enorme montanha. Ajoelha-te novamente naquele mesmo lugar onde tudo começou e procure dentro de si as respostas e tenha a humildade de enxergar em você os mesmos defeitos que vistes facilmente nos seus Irmãos e Tios. Essa é a verdadeira e infinita montanha que terás que escalar em busca da redenção.
Amor incondicional aos seus pais; respeito a todas as manifestações que encaminhem o ser humano à espiritualidade; amabilidade e polidez ao tratar o seu próximo; ser companheiro de seu Irmão mesmo quando ele esteja cego pelo ouro da Babilônia e não queira mais ficar ao seu lado fisicamente; estar sempre de coração puro mesmo quando muitos subestimem que neste gesto reside a verdadeira força e o poder dos homens de bem; amar a sua pátria criando condições para que seus pares alcancem a felicidade terrena e principalmente, seja sempre fiel a si e a quem lhe ama e não lhe faça cobranças. O verdadeiro amor não exige votos escritos, decorados e exigidos. A fidelidade é uma doce e natural conseqüência do amor, e sem amor nada somos.
Eu sempre amei e fui fiel a meu Pai, minha Mãe e aos meus Irmãos... a ponto de me sacrificar por eles sem arrependimentos e de repeti-lo tantas quantas vezes forem preciso até o dia em que a minha família estiver toda unida novamente, como nos princípios dos tempos.
Um dia a nossa Ordem será mais uma vez límpida como no seu princípio...
Para isso, escale a sua montanha meu jovem. E eu estarei sempre ao seu lado...
Agora durma um pouco e pense nisso...
Ao acordar, o jovem demolay não viu mais o sábio homem. Por um momento achou que teria sido um sonho, mas logo notou que ao seu lado ainda estava o pequeno cesto de pães e as jarras de água e vinho que apesar serem consumidas até o seu final, estranhamente continuavam sempre cheias...
“Escale a sua montanha meus Irmãos”
Feliz Natal
Feliz 2011
Feliz Natal
Feliz 2011

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